A Cores e Afins
por Flávia Viana
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Lollipops
Outubro de 2010 em Belém. Dias intermináveis de trabalho, esperando ansiosa o findar de mais uma jornada. Já tinha conhecido muitos lugares incríveis na cidade: do pôr -do- sol ,na Estação das Docas , ao filé de filhote com risoto de jambu, no Manjar das Garças. Pensei: -“ Preciso de arte para os ouvidos, para os olhos, quero me emocionar, preciso de a cores e afins”. Então, fui conhecer o Teatro da Paz. Prato do dia : Show de dança contemporânea. O lugar é lindo. Num requinte de detalhes me senti nos anos 40. Sentei da metade pro fundão, ali, bem no meio. Fiquei observando o ambiente e as pessoas que entravam. Muitos Jovens, famílias e gringos. Meus olhos saltaram imediatamente quando, ao meu lado direito , no camarote acima da platéia, surgiu uma senhora numa cadeira de rodas sendo empurrada pela sua cuidadora. Ela tinha uma cabecinha branca e uma manta colocada com carinho no seu colo. De repente apareceu outra cabecinha branca. Uma senhora mais jovem e esperta entra com os olhos vivos na platéia e no palco do teatro ; ao seu lado outra cuidadora. As quatro se ajeitam nas cadeiras e conversam à espera do espetáculo. Não consegui tirar meus olhos de lá. Fiquei emocionada ao vê-las curtindo o ambiente. Pra minha maior surpresa, uma surpresa com memória de infância, as duas cabecinhas brancas começam a chupar pirulito. Crianças em corpo de senhoras. Naquele momento um flashback passou na minha cabeça e as luzes do teatro se apagaram. No palco adolescentes apareceram e começaram a dançar uma musica lenta. Fiquei tão envolvida com tudo, que a única coisa que lembro era de uma melodia profunda e bonita que dizia: I’AM......I’AM.....I’AM. Aquilo bateu perfeitamente com o momento que eu procurava. A busca por emoções apareceu ali ,naquele teatro, onde duas senhoras sentiam também o batido da música e a intervenção das luzes no palco. Claro, sem largar os pirulitos, seus lollipops. A dança passou de emocional para o pop e pra dança de rua. Fechei meus olhos e imaginei aquelas senhoras jovens ao mesmo tempo que me imaginei mais velha, como uma senhora. Sutilezas de um momento mágico! A vida em cores para todas as idades, para quem quer, para quem procura. Acenderam-se as luzes e os aplausos vieram . As senhoras acompanhavam com fervor os espectadores, sem largar seus lollipops. Outra companhia de dança entrou e mais arte contemporânea invadiu o teatro. Bailarinos tinham seus figurinos rasgados, dançavam na batida da música eletrônica aliada a um vídeo- instalação. Uma mistura de estilos num ambiente que respirava vida. A princípio parecia uma diferença normal de épocas que casou perfeitamente, num só uníssono. E, de uma simplicidade quase imperceptível, se não fossem aquelas cabecinhas brancas com seus lollipops.
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