Tico Santa Cruz

Tico Santa Cruz (por Ramon Mello)

Tico Santa Cruz é conhecido através das músicas dos Detonautas ou por sua atuação política em manifestações contra a violência e impunidade junto à Ong Voluntários da Pátria. Mas, pouca gente sabe, por trás das tatuagens, dos piercings e da insatisfação do músico está um poeta sensível e angustiado. Não, ele não está lançando nenhum livro (ainda!), mas a cada dia mais se envolve entre as palavras.

Há um ano, conheci o Tico no Corujão Poético – Universo da Leitura, um encontro de poetas que acontece durante as madrugadas na Livraria Letras e Expressões, no Leblon. E foi nesse mesmo lugar que conversei com o músico-poeta, que toda semana bate ponto no evento que tem uma platéia grande e cativa: atores, músicos, poetas, professores e boêmios apaixonados por literatura.

O papo foi rápido, aconteceu nos corredores da livraria e durante a falação poética. Mas mesmo assim foi muito produtivo, em pouco mais de dez minutos já havíamos falado de política, literatura, música e processo criativo. A cada poesia falada, ele se comportava como um adolescente embevecido.

Gostaria que você começasse falando sobre a sua atuação política, das manifestações contra a violência, impunidade, corrupção...

TICO SANTA CRUZ - Na verdade, fazemos um movimento simbólico. Por não contar com o apoio popular de massa, resolvemos fazer ações como a do Greenpeace: atuamos para gerar a reflexão, fazemos o protesto e pessoas pensam... Nesta quarta-feira (dia 25 de abril), vamos fazer manifestação dos fantasmas na escadarias da ALERJ, representando a sociedade fantasma: a justiça fantasma, os funcionários fantasmas, os políticos fantasmas, o STJ fantasma... Tudo que é fantasma no Brasil que nós pensamos que existe e não conseguimos ver além da imaginação. É isso que queremos representar.

E o que você espera com esses protestos?

TICO SANTA CRUZ - Não espero nada...Na verdade espero que pelo menos uma pessoa pare diante dessa mobilização e questione. O povo brasileiro aceita muitas coisas sem questionar. Se tocar uma pessoa, estou satisfeito. O que estamos tentando plantar é o questionamento.

Na rua há rumores de que o Tico Santa Cruz quer se tornar político. Isso é verdade?

TICO SANTA CRUZ - Não. Quem falou nisso? Não, não...(RISOS) Não tenho rabo preso com ninguém. Eu vejo que a nossa política ainda está muito poluída, e para despoluir é um processo lento. Eu estou do lado oposto, do lado da contestação. Isso não quer dizer que daqui a 20 ou 40 anos eu não possa vir a pensar nesta possibilidade. Mas neste momento não penso nisso de forma alguma. Até porque se eu me colocar à frente de um partido político vou limitar o que quero falar, eu quero poder me expressar livremente!

Você é músico e um grande simpatizante de poesia. Como funciona essa relação da música com a literatura?

TICO SANTA CRUZ - Isso tudo é muito novo pra mim. Eu comecei a ler e a me dedicar à literatura realmente de uns 5 a 6 anos para cá. Até os meus 23 anos, que foi quando o meu filho nasceu, descobri que eu tinha o hábito de ler. Mas nessa época não era algo frenético como é hoje, que leio muito e escrevo.

O que chegou primeiro, a música ou a literatura?

TICO SANTA CRUZ - A música chegou primeiro! A música veio para mim de uma forma diferente. Ela chega por meio da sonoridade e não da letra em si. Na música gosto de fonemas e não necessariamente da palavra como significado poético. E hoje em dia o que tento fazer no meu trabalho é os fonemas com a poesia. E isso é um trabalho difícil, as pessoas pensam que é fácil, mas não é não. As pessoas pensam que é fácil porque é uma melodia popular, mas realizar um trabalho bonito, bem escrito, é complicado. Eu estou começando a apreender agora.

E como funciona o seu processo criativo?

TICO SANTA CRUZ - Eu sou meio livre. Eu não tenho uma regra, não me condiciono a nada. Aparece e vem... O novo CD do Detonautas – O Retorno de Saturno - que estamos produzindo, por exemplo, foi assim: eu viajei para Trancoso, lá foi batendo várias inspirações e assim surgiram sete músicas. Para mim isso é uma riqueza espiritual. Eu não sigo uma regra, mas quando aparece, estou atento. Meu celular tem um gravadorzinho, que eu gravo tudo, qualquer idéia.

Há pouco tempo você declarou numa entrevista que é um eterno angustiado. Você só escreve quando está neste estado?

TICO SANTA CRUZ – Ah normalmente eu sou angustiado, então eu costumo escrever angustiado. Mas eu aprendi a lidar com essa angústia de uma forma positiva, de entender que isso faz parte da minha natureza e que tenho que aprender a lidar com isso.

Quais são as suas maiores influências, seja na música ou na literatura.

TICO SANTA CRUZ - Na música eu posso citar três pessoas que me identifico imediatamente, são grandes ícones para mim: Raul (Seixas), Cazuza e Renato (Russo). São três caras que eu miro, é onde eu miro. São os três músicos que reverencio. Já na literatura, eu gosto muito de ler filosofia. Tem dois autores que são meus mestres filosóficos: um é Osho e o outro é André Comte-Sponville – um autor contemporâneo, que escreveu Bom Dia, Angústia, Felicidade Desesperadamente, O Pequeno Tratado das Grandes virtudes... E gosto muito do Irvin D. Yalom, que escreveu Quando Nietszche Chorou e A Cura de Schopenhauer.

Eu gosto dessas leituras que misturam psicanálise e trabalho da mente. Poesia eu leio pouco, mas há um tempo eu peguei Florbela Espanca, que é incrível. Gosto também de poesia marginal, não gosto muito de coisas muito clássicas. Embora, outro dia, eu tenha descoberto o Drummond e me encantado. Antes falavam em Drummond e eu lembrava daquela coisa chata, quando você está na escola e é obrigado a ler. Foi assistindo um documentário sobre o poeta que eu desfiz essa imagem. Tem Mário de Sá Carneiro, um poeta português contemporâneo do Fernando Pessoa, que eu gosto bastante.

E os autores contemporâneos?

TICO SANTA CRUZ – Tem uma galera que conheci aqui (no Corujão Poético – Leblon): o Tavinho Paes, Leprevoust, Igor Cotrin, Jean Queiroz... Todas essas pessoas que conheci aqui, com quais eu convivo e admiro o trabalho.

Esse evento – Corujão Poético – da Letras e Expressões, é o primeiro movimento poético que participa?

TICO SANTA CRUZ - Sim, eu comecei aqui. Quando eu entrei aqui, eu achei que estava vivendo uma ficção científica... (RISOS) Porque vi isso aqui acontecer numa época em que o evento não era tão grandioso. Era uma coisa muito sublime, voltada para poucas pessoas. Eu fiquei impressionado, parecia a época do Tom e do Vinícius, a galera de chapeuzinho... Eu me perguntava se era verdade mesmo. É muito bom ver pessoas interessantes, falando coisas boas. E aí comecei a freqüentar e isso foi mudando minha vida.

Você tem vontade de publicar um livro?

TICO SANTA CRUZ - Sim tenho vontade. Eu tenho um blog (Clube da Insônia), que eu escrevo muito, desde 2004. Eu não tenho pretensão de lançá-lo agora não, ainda quero adquirir mais bagagem, mais carga para poder usar isso como literatura e não só como forma de expressão.

Que recado deixaria para o jovens autores e jovens músicos que estão por aí?

TICO SANTA CRUZ - Ah isso engraçado... Sei lá!? Eu diria ‘experimente’! Experimentar é tudo, a transformação vem da experimentação.

Veja fotos dele...

 

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