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DERCY GONÇALVES

Dercy Gonçalves tinha 17 anos e estava escondida embaixo de um vagão do trem, espantando os cães para não ser descoberta. Meia hora antes, havia roubado dois mil réis do bolso da calça do pai. Encheu a cama de travesseiros para ninguém notar sua ausência e saiu em disparada. Ao raiar do dia quando as portas do vagão, de segunda classe, abriram e o trem apitou, ela deslizou para dentro agarrada ao sonho de alcançar Macaé (RJ), onde pretendia se juntar a uma companhia de teatro mambembe. "Quem me criou foi o tempo, foi o ar. Ninguém me criou. Aprendi como as galinhas, ciscando, o que não me fazia sofrer eu achava bom".

Amor proibido

Filha de alfaiate e neta de coveiro, Dolores Gonçalves Costa (nascida a 23 de junho de 1907 em Santa Maria Madalena, a 237 quilômetros do Rio de Janeiro) ficou sem a mãe muito cedo. A lavadeira Margarida, mãe de Dercy, descobriu que o marido tinha uma amante. Ofendida e humilhada, arrumou as trouxas e foi para o Rio de Janeiro, largando os sete filhos para que o infiel tomasse conta. Vitória, a amante de seu Manoel, passou a frequentar a casa. "Ficavam namorando na sala, de mãos dadas. Mas papai nunca assumiu o romance. A certa altura da noite, ela ia embora." Dercy, bilheteira de cinema, escandalizava a cidade ao pintar o rosto como as atrizes dos filmes mudos. Dançava para alegrar os hóspedes do Hotel dos Viajantes em troca de um prato de comida. Na missa, de vestido de chita, cantava de pé num banquinho abraçada à imagem de Jesus.

Se apaixonou por Luís Pontes, um rapaz de bons modos. "Foi a primeira pessoa que me deu carinho. Mas a família dele proibiu o namoro." Quando encontrou a companhia de teatro mambembe, Dercy tinha todas as razões do mundo para fugir de casa.

Em Conceição de Macabu (RJ), passou a ser assediada pelo cantor Eugenio Pascoal. "Não sabia que eu era moça, não tinha virado mulher." Só tomou coragem para se entregar quando a turnê chegou a Leopoldina (RJ), duas semanas depois. Gentil, Pascoal saiu do quarto para que ela colocasse a camisola feita de saco de arroz. Tinha até inscrito no peito: "Indústria Brasileira de Arroz Agulhinha, arroz de primeira." Os carinhos preliminares não a incomodaram, mas quando ele a penetrou Dercy deu um pulo. Viu que estava sangrando e imaginou-se ferida. "Sentei o pé nele e saí porta afora. Socorro! Esse homem me furou! Imaginei que tinha enfiado um facão e rasgado minhas tripas." Nunca mais houve clima para romance, mas eles se tornaram grandes amigos, até Pascoal morrer, tuberculoso. Pior: contagiou Dercy. Foi quando ela encontrou Ademar Martins, exportador de café mineiro, casado, muito católico. Levou-a para um sanatório perto de Juiz de Fora, aparecia uma vez por semana para vê-la e pagar a conta. Depois, instalou Dercy num hotel na praça Tiradentes, no Rio. Só então transaram pela primeira vez. Nasceu Dercimar, a única filha de Dercy. "Teve aulas de boas maneiras, aprendeu francês e casou com um quatrocentão da Tijuca. É uma dama na expressão da palavra", deleita-se Dercy.

Escola de irreverência

Estrela das comédias da praça Tiradentes e das revistas musicais do Cassino da Urca, fez do palavrão cavalo de batalha. "Sou um retrato do País, que é a própria escrotidão", dispara. Ao imitar os trejeitos de Carmen Miranda, coçava o corpo todo. Ironizava o caminhar manco de Orlando Silva e fazia troça do vozeirão de Vicente Celestino. Fez 36 filmes e, a partir de 1957, entrou também na televisão. Nos anos 60, Consultório sentimental, na TV Globo, uma espécie de talk-show primitivo ela esculhambava o convidado, chegou a ter 90% da audiência dos aparelhos ligados. "Sou uma escola de irreverência. " Dercy chega aos 92 anos sozinha. Casou na década de 40 com o jornalista Danilo Bastos, dez anos mais jovem. "Não era amor, e sim troca." Teve um caso tórrido com o acrobata Vico Tadei, mas amor verdadeiro, de chorar, só o Luís Pontes, o rapaz de bons modos de Madalena. "Escrevia cartas e as lágrimas caíam no papel. Mas o tempo passou e eu esqueci Luís Pontes. Ai de nós se não houvesse o esquecimento."

Morte

A atriz e humorista, Dercy Gonçalves, morreu às 16:45 hs do sábado, dia 19 de julho, aos 101 anos. Com problemas respiratórios, a atriz não resistiu às complicações de seu quadro. O corpo da comediante Dercy Gonçalves foi sepultado no dia 22 (terça-feira) de julho no cemitério de Santa Maria Madalena, cidade na região serrana do Rio em que nasceu e no qual mantém um mausoléu desde 1991. O caixão foi colocado na posição vertical, seguindo pedido da própria comediante. A cidade preparou uma despedida festiva, com apresentações musicais de cantores e bandas, e recebeu fãs até de outros municípios.

Integrantes da escola de samba Unidos do Viradouro, que lhe dedicou um enredo em 1991, fizeram uma homenagem a ela durante o velório, realizado no clube Montanhês, onde centenas de pessoas acompanharam as últimas homenagens à comediante nas ruas.

A filha única de Dercy, Dercimar, disse que estava "tranqüila" porque "tudo foi feito como ela queria". "Ela queria samba da Viradouro, helicóptero, Corpo de Bombeiro, batedor... Não queria tristeza, baixo-astral", afirmou. Construiu um túmulo do lado de fora do cemitério de Madalena, porque dentro não cabia. O mausoléu tem 120 metros quadrados de mármore em forma de pirâmide. "Hoje a cidade me aplaude. Até museu fizeram para preservar a minha história."

O Museu

O Museu Dercy Gonçalves é exteriorização do orgulho e da admiração que a cidade de Santa Maria Madalena tem pela sua mais ilustre cidadã.

O Museu foi inaugurado no dia 07 de setembro de 1996 e abriga hoje acervo da atriz, incluindo trajes de cena e noite, chapéus, bolsas, perucas, sapatilhas, sombrinhas, bijuterias, troféus e placas, quadros, diplomas e certificados, cartazes, programas, entrevistas, fitas de vídeo, textos, jornais, revistas e fotos, correspondências pessoais etc.

Conhecida por seu humor debochado e pelos palavrões, Dercy Gonçalves tornou-se sinônimo de improviso e irreverência.

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