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Dona Canô

A baiana que é uma lição de calma e sabedoria há 100 anos por Simone Serpa

Chegar ao sobrado branco de janelas azuis em Santo Amaro da Purificação, a 71 quilômetros de Salvador, é muito fácil. Basta perguntar a qualquer um dos 80 mil habitantes onde fica a casa de Dona Canô. Bem ali, pertinho da igreja do Amparo é a resposta, prova da familiaridade do povo com a matriarca dos Velloso, que mora na cidade desde sempre e nesta mesma casa há 60 anos e nem a notoriedade dos filhos, o compositor e cantor Caetano Veloso e a intérprete Maria Bethânia, a fez mudar-se de lá.

Sobre os móveis e paredes da casa de corredor comprido, pé-direito alto e pátio interno, ela guarda muitas lembranças. Fotos emolduradas, gravuras e telas contam a história de uma vida, ou melhor, de dez vidas: a dela, a do marido já falecido e a dos oito filhos. É claro que há muitas fotos dos shows e momentos de Bethânia e Caetano, mas há ainda mais da própria Dona Canô, sendo cumprimentada e reverenciada por artistas, políticos (como o presidente Lula e o então governador baiano Antônio Carlos Magalhães) e pela própria família. Na sala, uma tela de Gustavo Moreno exibe o sorriso bondoso e o olhar ao mesmo tempo forte e carinhoso dessa baiana que se tornou conhecida no Brasil, famosa na Bahia e celebridade em Santo Amaro.

Boa conversa

A chegada aos 100 anos foi uma surpresa para Dona Canô, mas não é fato incomum na pequena e, segundo ela mesma diz, agradável Santo Amaro. Tenho algumas amigas com 100 anos. Em agosto fui ao aniversário de uma amiga em que havia outra de 102 anos, revela. Esta, conta, lavava roupa para ganhar a vida. Trabalho não faz mal, não. Eu mesma fazia tudo dentro de casa, diz com tristeza por hoje ser obrigada pela idade a ficar mais quieta.

Atualmente tem medo de cair, por isso passa a maior parte do tempo sentada. Se ela ouve o telefone, logo faz um giro com o corpo para alcançar o aparelho na mesinha de cabeceira. Quando uma amiga ou vizinha entra na casa, coisa que acontece o tempo todo, Dona Canô imediatamente engrena uma conversa. Comenta sobre a festa que teve no fim de semana, sobre a inauguração para a qual foi convidada, sobre a gripe que a filha da amiga pegou e que também derrubou Bethânia... Tudo é motivo para um bom papo. Mesmo os turistas e não são poucos que vão à avenida Ferreira Bandeira, número 179, para conhecê-la, encontram as portas abertas. Não importa quem seja, todos são bem-recebidos por ela e pelo filho Rodrigo, que, aposentado, divide seu tempo entre a tecelagem e os cuidados com a mãe.

Aliás, cuidado e atenção não faltam à centenária, nascida em 16 de setembro de 1907, batizada Claudionor Viana Telles Velloso (assim mesmo, com ll. No registro do Caetano houve um erro e saiu Veloso). Nome pomposo, extenso e complicado para alguns, como foi o caso do menino que não conseguia pronunciá-lo direito e, por isso, inventou o apelido, que hoje parece bem apropriado e soa mais familiar e carinhoso que o próprio nome. Assim, ainda criança, Claudionor virou Canô.

Hábitos regrados

Ela acorda cedo, por volta das 6 da manhã, toma café com leite e suco. Meio-dia é o único horário em que se alimenta de algo sólido, comida de verdade. E aí não faz restrições. Como de tudo, mas bem pouquinho, diz. No cardápio, sempre recheado de frutos do mar e moquecas, não faltam azeite de dendê, leite de coco e o que mais fizer parte do tempero. Moqueca de arraia com feijão de leite é uma de suas combinações preferidas. À noite, só sopa e café. E para que mais?, aproveita a pergunta como resposta a Rodrigo, que reclama que ela come muito pouco. Ao fim do jornal das 8 da noite na TV, Dona Canô vai dormir. Massagem e fisioterapia fazem parte da sua rotina. Os filhos acham que devo fazer e eu faço, fala, obediente e resignada.

Sobre sua cama, coberta por lençol impecável, tem sempre algo para ler. O tipo de leitura não importa. Leio jornal, revista, livro, história, poesia. Gosto muito de poesia, diz, e conta orgulhosa que sua filha Mabel apelido de Maria Isabel é professora e escritora de histórias infantis e poesia. De todos os oito, Mabel foi a única que completou o terceiro grau. Caetano chegou a cursar filosofia, mas não quis tirar o diploma, afirma. Entretanto, isso nunca foi motivo de preocupação nem para Dona Canô nem para José Telles Velloso, o Zeca, seu companheiro por 53 anos, que era funcionário da Companhia de Correios e Telégrafos No dia em que os filhos chegavam e diziam que não queriam estudar mais, que preferiam trabalhar, a decisão era aceita e respeitada. Cada um fez o que quis e hoje todos são felizes, diz.

Bela lição de uma mãe que veio de origem muito humilde, mas teve acesso a teatro, música e poesia; estudou em escola particular; aprendeu a falar francês e a tocar piano. Tudo porque foi criada na casa de uma família rica da região. Assim, arte e cultura permeavam o dia-a-dia da família Velloso. A própria Dona Canô costumava cantar para todos e sempre disse que a música é a melhor coisa do mundo. Sob tal infl uência os oito filhos aprenderam a tocar instrumentos. Os dois famosos não são os únicos que seguiram ligados à arte: Nicinha também toca piano na igreja e Rodrigo faz tecelagem.

Se perguntada sobre sua fama, Dona Canô garante que não entende. Apenas fiquei conhecida por causa de meus dois filhos que nunca se esqueceram de onde vieram nem da mãe que têm, diz. Cumpri o meu dever, soube criar meus filhos, todos são os mesmos da época em que eram crianças, fala, ressaltando que Nicinha, Clara Maria, Maria Isabel, Rodrigo, Roberto, Caetano, Maria Bethânia e Irene não deram trabalho. E conclui que talvez, pelo fato de ter criado bem os filhos, tenha sido recompensada por uma vida tão boa.

Reunir a família toda é difícil Nicinha e Rodrigo estão sempre por perto; Mabel, Clara e Irene vivem em Salvador e aparecem com freqüência; já Roberto, Bethânia e Caetano moram mais longe, trabalham muito e são mais raros. Isso sem falar nos nove netos e cinco bisnetos. Mas juntar todo mundo, como em setembro, em seu aniversário de 100 anos, é motivo de muita alegria. Os que vêm de fora se dividem entre os dez quartos da casa e o encontro, regado a muita comida gostosa e bom papo, estende-se noite adentro. O carinho de todos é evidente. Caetano quando chega logo põe a cabeça no meu colo e todos ainda me pedem a bênção, fala, já sonhando com o próximo encontro.

Celebração da vida

A fragilidade do corpo miúdo esconde uma força que, segundo ela, vem da fé. Sinais de sua devoção estão por toda parte. Bem na entrada de seu quarto, há um santuário com grande coleção de imagem de santos. Nem sei quantos tem, nunca contei, comenta. Na cabeceira da cama, colares dos santos e fitas do Senhor do Bonfim confirmam o tão falado sincretismo religioso da Bahia. Sempre tive muita fé. Assisto à missa na TV todos os dias e uma vez por semana vou à igreja, afirma Dona Canô, que gosta de festejar os santos.

Na véspera de São João, faz questão da fogueira na porta, da casa toda enfeitada, da mesa farta de comidas típicas canjica, amendoim, milho cozido, bolo de fubá e licores, em especial o de jenipapo, para receber quem quiser entrar e papear um pouco. Ela celebra também São Pedro, faz o caruru de São Cosme e São Damião, a trezena de Santo Antônio, passa Natal e ano-novo na casa de praia em Cabuçu, a 29 quilômetros de Santo Amaro, e em fevereiro comanda a tradicional lavagem da escadaria da Igreja Nossa Senhora da Purificação. Aliás, por causa dela essa comemoração entrou para o calendário oficial do estado. Tudo é motivo de festa em Santo Amaro e, por extensão, na casa dos Velloso, onde os quitutes são preparados por Isaura, a cozinheira de 40 anos, as ajudantes Fifi e Odília e mais quem se oferecer para dar uma mãozinha. E invariavelmente aparece ajuda para mexer os panelões e caprichar nas iguarias.

Coração franco

Mesmo tendo sido sempre muito animada, Dona Canô não quis tomar conhecimento de como seria a comemoração do centenário. Do que ela fez questão mesmo foi da missa. O resto foi combinação dos filhos. Veio gente famosa Gilberto Gil, Regina Casé, só para citar algumas , mas o povo de Santo Amaro também participou da celebração, é claro. Para eles, foi organizado um brunch em plena praça, em frente à igreja.

Pela eterna disposição de receber as pessoas, seja lá quem for, e por tudo o que já fez por Santo Amaro, Dona Canô é adorada nesse pedacinho do Recôncavo Baiano. Da mesma maneira que adotou e deu muito amor a duas de suas filhas Nicinha e Irene , ela é também a mãezona dos santo-amarenses. Quando ela passa nas ruas, todo mundo já sabe: Dona Canô está indo fazer o bem. Em seus aniversários nunca quer presentes, só comida ou material de higiene que recolhe para doação. Seu nome batiza um centro oftalmológico para pobres, um teatro e uma biblioteca na cidade. Segundo ela, está aí a razão de sua longevidade: Recebo e dou muito amor, tenho prazer de viver e paciência, sei que tudo tem seu tempo. E alguém duvida?

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